A la taverna del Mar

Lluis_Llach-Campanades_A_Morts-FrontalA la taverna del Mar está inserida originalmente no trabalho Campanadas a morts (1977), sendo desse disco a segunda faixa; aparece também, vinte anos depois em Nu.

Essa canção de singular beleza é uma das músicas de Lluís Llach feita sobre poesias de Konstantinos Kaváfis. É fato estranho que o sítio oficial do cantor omita esse fato, o que não ocorre com Ítaca (do disco Viatge a Ítaca, 1975), cuja página indica a referência ao poema Ithaca do poeta grego. Pode ser pelo fato de A la taverna del Mar não ser exatamente o poema kavafiano Énas géros (Um velho) musicado, mas sim uma paráfrase ou livre tradução, fazendo uso dos temas evidentes que são a velhice e a degradação física por ela trazida e também uma recordação dolorosa do passado. O poema pode ser lido no fim dests postagem, após a tradução da música.

Sonoramente é impactante. O refrão é acompanhado por um alçamento dos instrumentos que indica o incorfomismo pela situação, enquanto o piano inicial puxa uma aura de piedade e melancolia.

Aqui temos Llach interpretando A la taverna del Mar, no Liceu, em Barcelona (2002):

A la taverna del Mar

A la taverna del Mar hi seu un vell
amb el cap blanquinós, deixat anar;
té el diari al davant perquè ningú no li fa companyia.

Sap el menyspreu que els ulls tenen pel seu cos,
sap que el temps ha passat sense cap goig,
que ja no pot donar l’antiga frescor d’aquella bellesa que tenia.

És vell, prou que ho sap; és vell, prou que ho nota.
És vell, prou que ho sent cada instant que plora.
És vell, i té temps, massa temps per a veure-ho.
Era, era quan era ahir encara.

I se’n recorda del seny, el mentider,
com el seny que li va fer aquest infern
quan a cada desig li deia “demà tindràs temps encara”.

I fa memòria del plaer que va frenar,
cada albada de goig que es va negar,
cada estona perduda que ara li fa escarni del cos llaurat pels anys.

És vell, prou que ho sap; és vell, prou que ho nota…

A la taverna del Mar hi seu un vell
que, de tant recordar, tant somniar,
s’ha quedat adormit damunt la taula.

© Edicions l’Empordà

Na taberna do Mar

E na taberna do Mar senta-se um velho
de cabelos brancos, deixado lá;
tem à frente um jornal porque
companhia ninguém lhe faz.

Sabe o desdém que os olhos têm pelo seu corpo,
sabe que o tempo passou sem nenhum gozo,
que já não pode dar o antigo frescor daquela beleza que ele tinha.

É velho, basta só que o saiba; é velho, basta só que o note.
É velho, basta só que o sinta cada vez que chora.
É velho, e tem tempo, muito tempo para vê-lo.
Era, era quando ainda ontem era.

E lhe lembra o juízo, mentiroso,
como o juízo que lhe fez esse inferno
quando a cada anelo dizia “amanhã ainda terás tempo”.

E se recorda do prazer que ele estancou,
cada aurora de gozo que se negou,
cada hora perdida que ri da pele agora sulcada pelos anos.

É velho, basta só que o saiba; é velho, basta só que o note…

Na taberna do Mar, senta-se um velho
que, de tanto lembrar, tanto sonhar,
deixou-se dormir sobre a mesa.

Tradução revista em 1) 21 de agosto de 2009.

Um velho
[Konstantinos Kaváfis] – original grego

No interior do café ruidoso,
inclinado sobre a mesa, está sentado um velho;
com um jornal à sua frente, sem companhia.

E no menosprezo da velhice miserável
pensao quão pouco fruiu dos anos
em que tinha a força, o verbo e a beleza.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, observa-o.
E entretanto o tempo em que era jovem se lhe afigura
como ontem. Que breve espaço, que breve espaço!

E medita como a Prudência o enganava;
e como sempre confiava nela – que loucura! –
a mentirosa que dizia: “Amanhã. Tens muito tempo.”

Lembra-se dos ímpetos que reprimia; e quanta
alegria acrificava. cada oportunidade perdida
zomba agora da sua prudência insensata.

…Mas por muito pensar e recordar,
o belho atordoou-se. E adormece,
apoiado na mesa do café.

Tradução de Ísis Borges da Fonseca, exraída de Poemas de K, Kaváfis, p. 37. São Paulo: Editora Odysseus, 2006.

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3 comentários

Filed under Campanades a morts (1977)

3 responses to “A la taverna del Mar

  1. Não acho tão livre assim a versão da música a partir do poema do Kaváfis. Parece-me que a tradução só apresenta uma atenção à apresentação musical, mas há poucas variantes de significado.
    De qualquer maneira, sabe o valor que vejo em sua tradução, mas gostaria de trabalhar a ideia de cantáa-la em português, o que dará mais trabalho.
    Uma belíssima canção, decerto!
    A propósito, peço um texto sobre a canção Encara!

    Abraços!

    • Père Sariette

      Boa sugestão, Miguel… estava pensando também em fazer a “Bon senyor” ou “Madam”… como vai ficar agora para a semana que vem, vamos ver certinho…

  2. WMC

    Adoro a introdução do piano, cheia de influência post-impressionista à maneira de Mompou.

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